quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sobre o mundo do trabalho

O trabalho vem sofrendo mudanças significativas. A chamada reestruturação produtiva tensionou as formas com que o trabalho vinha se estruturando. Uma nova condição da classe trabalhadora emerge dos constantes fluxos informacionais e da produção industrial de bens dessa natureza, da informatização do mundo do trabalho, pela fragmentação dos coletivos dos trabalhadores e por aquilo que Braga (2006) chamou de “superação da relação salarial canônica”.
O objetivo deste é construir uma reflexão que atente para a nova condição dessa classe trabalhadora a partir das pesquisas de Ruy Braga com os teleoperadores. Atentamos também para o fato de que assim como afirma Telles (2006), o trabalho, por mais que tenha sido transformado em relação a sua forma “fordista”, ainda é uma dimensão central organizadora da vida social. Dessa forma, ao demonstrarmos as implicações das mudanças do trabalho evidenciamos também por meio das reflexões de Telles a problemática das vivências urbanas que, mediadas pelo trabalho, desdobram-se em diferentes contextos.
É importante ressaltarmos que “as novas configurações sociais” que alteram as relações entre trabalho e sociedade, evidenciando, de certa forma, “novos tempos” no que tange a inserção das novas gerações nesse mundo “já revirado”, Telles (2006) aponta que
 A diferença das gerações é, portanto, algo que precisa ser bem entendido, não para fazer a comparação ponto a ponto (era assim, não é mais), que sempre contém o risco de uma descrição em negativo que termina por falar sempre do mesmo (o trabalho fordista), apenas com os sinais invertidos. O problema aí não é tanto a idealização de algo que, ao menos no caso brasileiro, não tem por que ser celebrado (essa é a crítica mais fácil de se fazer, e que já foi feita por muitos), mas ficar aprisionado num jogo de referências que não permite apreender os sentidos da experiência social que se vem desenhando. E isso exige um trabalho de deciframento do social capaz de captar novos campos de força configurados sob outro diagrama de relações e referências sociais. Para os mais jovens, as circunstâncias atuais do mercado de trabalho não significam uma degradação de condições melhores ou mais promissoras em outros tempos. Eles entraram num mundo já revirado, em que o trabalho precário e o desemprego já compõem um estado de coisas com o qual têm que lidar, e estruturam o solo de uma experiência em tudo diferente da geração anterior. (TELLES, 2006:176)


            A partir dessa perspectiva destacada por Telles, relacionada às novas configurações sociais, acreditamos se tratar de uma crise estrutural que apresenta uma nova dinâmica onde as gerações mais jovens encontram um mundo de trabalho esfacelado, dada a degradação e precarização das condições com a qual se deparam.
            Podemos apontar como exemplo a essa configuração, o trabalho nas Centrais de Teleatividades  (CTAs) ou: “call centers,,contact center e centres d’ appels”,  destacado por Braga (2006).
            A apresentação desse contexto esboça claramente que a perspectiva do trabalhador, ou “operador”, nessa atividade, encontra-se em um processo de desvalorização continua. Verificamos a precarização do trabalho, imposta por transformações da reestruturação produtiva capitalista, como uma nova forma de dominação e exploração do trabalhador. Não obstante, através da leitura de Beaud e Piloux , Braga (2006) destaca que as transformações decorrentes desse processo de dominação faz com que “ser operário hoje significa estar condenado a permanecer em um universo desvalorizado”  (p.134).
            A partir desse ponto apresentado é possível verificar que a figura do operário que antes era vista sob o ponto de vista da organização e da consciência de “classe”, reconfigura- se diante de um processo de desestruturação que contribui para a desmobilização da “classe operária”. Na análise Beuad e Piloux (2005), destacado por Braga (2006), observamos que os operários existem, mas não os vemos mais enquanto “classe”. Lembrando que as novas atividades de trabalho que emergem diante da degradação laboral evidenciam que os jovens inseridos em tal perspectiva não reconhecem o universo simbólico das lutas políticas dos “antigos” operários acerca de identificação com a “classe”, ocorrendo assim, a “fragmentação dos coletivos de trabalhadores”.
            Acerca da preocupação de Beaud e Piloux, que tinham como perspectiva a realidade francesa, e com a pretensão de compreender as transformações do modo de reprodução do meio operário frente á sua condição, Braga (2006) destaca que    
Essa preocupação globalizante de Beaud e Pialoux em iluminar a d
Um dado importante é que, em sua maioria, os teleoperadores dos CTAs, são estudantes. Evidenciando que a atividade exige mão de obra pouco qualificada. Os CTAs funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, sendo assim, exigem uma forte disponibilidade do trabalhador, que operam sobre pressão de seus supervisores, atendendo chamadas a cada 20 segundos. Destaca- se então, a precariedade nas condições dessa atividade, que influência diretamente nas relações entre trabalho e sociedade.


            Já verificamos em Telles (2006) que as novas gerações de trabalhadores “encontraram um mundo já revirado”, mas de que forma essa nova condição afeta o ambiente urbano?
            Com as referências apresentadas pela autora, podemos destacar que as relações entre indivíduo e trabalho sofrem um processo de descontinuidade e instabilidade, afetando diretamente o espaço urbano. Há uma dinâmica dentro dessa perspectiva que apresenta para os jovens uma realidade de trabalho que transita entre formal, informal, licito e ilícito.

Eis o ponto que traz as novas gerações para o centro nevrálgico desse mundo social que se vem configurando. São jovens que se lançam no mundo no momento em que o encolhimento dos empregos e a precarização do trabalho acontecem simultaneamente e no mesmo passo da ampliação e diversificação dos circuitos da vida urbana. (TELLES. 2006:177)
                    

            Atentando para este ponto, verificamos a “diversificação dos circuitos” como uma realidade colocada às novas gerações onde as perspectivas se reduzem ao trabalho temporário e precarizado, tanto em termos salariais como em suas condições. São operadores de CTAs, moto boys, faxineiros (limpeza terceirizada), estagiários etc, que geralmente são agenciados com contratos de trabalho flexíveis, que transitam neste circuito de descontinuidades urbanas.
            Telles (2006) explicita a perspectiva do segurança Geraldo de 27 anos, que é filho de operário metalúrgico e trabalha em um hotel 5 estrelas. Ele trabalha desde os 19 anos, já foi garçom, fiscal de loja e também trabalhou em algumas fábricas nas adjacências da favela onde mora. Não conseguiu se fixar em nenhum emprego. Fez um curso de segurança privado no ano de 2007 para tentar mudar as condições de vida.

Como pudemos flagrar em outros lugares, o emprego de segurança é hoje visto como muito promissor. Como nos disse um jovem que mora em um bairro vizinho, também pauperizado e muito mal-afamado por seus altíssimos índices de morte violenta, é “um emprego certo, tem mercado garantido”. (TELLES, 2006: 190)

           

Bibliografia

BRAGA, Ruy. (2006). “Uma sociologia da condição proletária contemporânea”. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1

TELLES, Vera S. (2006). “Mutações do trabalho e experiência urbana”. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1



Escrito por Valter Chanes e Marcos de Lima