segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Sociologia e a Bicicleta


Neste mundo louco de "brasileiro é apaixonado por carro", podemos verificar que muitas pessoas vêm optando por bicicletas como meio de transporte. Sempre gostei de bicicletas, e no período entre minha infância e adolescência a utilização da bicicleta, de certa forma, foi recorrente no meu modo de vida, porém isso foi mudando com o tempo. Em 2001 comprei minha motocicleta- CG 125- e de lá pra cá as duas rodas se acentuaram ainda mais na minha vida. Até porque, motocicletas, em sua totalidade, tem um custo menor que os veículos quatro rodas. Em 2010, novamente, adquiri uma bicicleta, mas os passeios com ela vêm sendo bem tímidos. Não sei se é por falta de tempo ou comodismo. Hoje, ao me aventurar mais uma vez a andar com a bike, comecei a refletir sobre os benefícios e ao prazer que ela pode proporciona. Principalmente a um fumante sedentário como eu. É lógico pensar que a bicicleta pensada como meio de transporte, ou lazer, deve ser analisada a partir do desenvolvimento da tessitura social e das condições sócio econômicas de cada população. Ao tomarmos como parâmetro a cidade de Campinas- SP, podemos destacar a crescente preocupação de determinada camada da população acerca dos problemas enfrentados com o trânsito, bem como com relação à saúde. Relacionada a essa problemática, a prefeitura da cidade sancionou a LEI Nº 13288 DE 10 DE ABRIL DE 2008, onde em seus 18 artigos discute a implementação de anéis cicloviários, programas de prevenção no trânsito, locais adequados para bicicletários e etc. Destaca- se que, por ser uma cidade com relevo acidentado, Campinas era considerada uma cidade sem condições adequadas para a prática do ciclismo. (WIKIPÉDIA, a Enciclopédia Livre).
Hoje a cidade que tem aproximadamente 1 088 611 habitantes e 238,323 km² de perímetro urbano, segundo o IBGE, e conta com apenas 19,7 km entre ciclovias e ciclofaixas.
Não apenas a questão das condições de relevo acidentado, mas também da mobilidade social, a proposta de utilizar a bicicleta como meio de transporte, acaba sendo inviável à maioria da população, visto que muitos moram e trabalham em bairros com perímetros opostos. Imaginemos um cidadão que mora na vila Costa e Silva (região norte), tendo de se deslocar para a zona Industrial próxima ao aeroporto de Viracopos que fica na região sul. Ele teria de percorrer cerca de 75 km entre ida e volta do trabalho. Isso acarretaria numa abrupta mudança no modo de vida desse indivíduo.
Mas, qual a questão que quero colocar aqui?
É importante que verifiquemos as condições apresentadas nos meandros do tecido social a cada camada da sociedade, e que não generalizemos - me arrisco a colocar, homogeneizemos- as vontades e necessidades do corpo social. Isso acarretaria em grandes problemas de adaptação.
A questão a ser discutida é acerca da mobilidade urbana e não de um simples recorte envolvendo o transporte. Uma frase que sempre utilizo, remetendo a um professor do ensino médio (Márcio Messias), é que “nós adoramos curar câncer com Band Aid”.  
Um problema sempre remete a outro, com “um fato social só pode ser explicado por intermédio de outro fato social” (DURKHEIM, Émile. Da Divisão Social do Trabalho)
Apontando para uma questão mais profunda que é a mobilidade urbana nas grandes cidades, neste início de século XXI, podemos refletir sobre como a participação dos cidadãos, no que tange os emergentes problemas urbanos, pode interferir na roda da história.
Que esses problemas são efeitos colaterais do capitalismo, não há dúvidas. A questão é como amenizá- los ou transformá- los.
Será que estamos vivendo um fenômeno de fordismo- termo alcunhado por Antônio Gramsci, pensador italiano, remetendo a Henry Ford-  tardio?
Henry Ford (1863- 1947) idealizou, em meados de 1913, um processo de produção de veículos automotores em massa com visão a uma nova forma de consumo social. Tratava- se de veículos com preços acessíveis onde “todos poderiam comprar”.  O processo desenvolveu toda uma indústria de automatização, bem como na própria questão de divisão do trabalho.
A idéia de que “todos podem consumir ou comprar”, parece ser perfeita, em tese, mas na prática não é assim que ocorre. A partir da leitura do livro “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (1999), de Marcelo Massagão, que se tornou um filme em 2000, verificamos que a memória do século XX foi resgatada, não de forma histórica, mas de um olhar sobre a memória, de fato. A loucura do processo produtivo e do consumo em massa fez- e o faz, ainda hoje- milhões de miseráveis não apenas em condições matérias, mas em condições psicosociais.
O apontamento de Karl Marx (1818- 1883) referente ao Fetichismo da Mercadoria, no livro o Capital (1867), volume I, é factível às condições apresentadas aos problemas recorrentes da época. Mas, é nos dias atuais?
Se ao produzir uma mercadoria, o indivíduo não se reconhece nela, é ele, então, também mercadoria. Na ótica marxista, tudo no sistema capitalista é mercadoria, inclusive os indivíduos.
O tardio desenvolvimento capitalista no Brasil se deu em meados dos anos de 1941, com a criação da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), a partir de um acordo firmado entre o presidente Getúlio Vargas (1882- 1954) e o governo dos Estados Unidos da América, denominado Acordo de Washington. Referente a esteacordo existem inúmeras versões, porém a mais palatável é a de que o Brasil “ofereceu apoio a gregos e troianos que estavam em guerra”, e os gregos foram mais pragmáticos nesta questão, aceitando o apoio e contribuindo para a produção de aço no país com vistas a apoiar os países aliados e o desenvolvimento da siderurgia na terra brasilis.
Nesse desdobramento, o país não parou e entrou na roda do “progresso”. Foi no governo de Juscelino Kubitscheck (1902- 1976) que o desenvolvimentismo começa a ter o caráter do capitalismo, com o “plano de metas” (1956). O pais a economia para o capital estrangeiro e a industria automobilística alçar os primeiros vôos. A Volkswagen é um exemplo.    
Não só o mercado automobilístico se desenvolveu nesta época, as grandes hidrelétricas progridem concomitantemente.
O caro leitor há de me perguntar: por qual razão toda essa redundância histórica pra falar de “Sociologia e Bicicleta”?
É necessário compreender o processo histórico de desenvolvimento da tessitura social de uma população para que possamos conhecer os atuais fenômenos sociais.
O século XX foi um processo histórico que abarcou em duas grandes guerras (1914- 1918 e 1939- 1945) e um crescente aumento da desigualdade e da miséria em todo mundo. O que fazemos, então,  com o século XXI?
Será só a questão da mobilidade social um tema importante?  E o trabalho, o consumismo desenfreado e o bombardeamento midiático acerca das necessidades imediatas? 
 E a Educação, um dos fatores primordiais para a constituição identitária do sujeito?
Neste ínterim, eu fico pensando que uma simples volta de bicicleta pode suscitar inúmeros problemas.


Valter Chanes